Passei pomada, piorou.
Lavei de novo.
O filho da puta que inventou as
regras de etiqueta,
devia ter cabeleireiro em casa.
Um chapéu resolveria minha vida.
Pedi ajuda com minha roupa
e Catarina resolveu tudo.
Uma coisa a menos.
Lembrei daquela gente toda que
vai assistir,
a dor de barriga voltou.
No tempo que levei cagando
repassei minha falas.
Fazia tempo que eu não via gente.
Só Catarina mesmo,
e o Márcio do delivery.
Essa convenção me apavorava.
Sei que o mérito era meu.
Eu tinha que ir.
Mas me apavorava.
No Uber comi todas as balas.
Esperando que o microfone
não captasse o barulho da minha
barriga.
Saindo do carro, um trator.
Meus óculos voaram.
Estavam destruídos.
A desgraçada nem parou pra olhar.
Se parou, eu também não vi.
Não tava vendo porra nenhuma.
Maior que meus seis graus de miopia,
só o meu desespero.
No saguão me receberam.
Resolvi sorrir, já que não reconhecia
ninguém.
Uma mulher vinha na minha direção.
Dois passos antes dela chegar,
não reconheci Catarina.
Ela riu com a situação.
– Você não tá enxergando nada?
– Fala baixo, porra. Ninguém sabe.
Me levaram para frente do palco.
Ouvi meu nome.
Salva de palmas.
As pernas quase não caminharam.
Subi lentamente e me virei com pavor.
A plateia era turva.
Um Monet no fim da vida.
Poucas pinceladas eram no vermelho.
Sorri pra mais próxima,
torcendo que fosse Catarina.
Ninguém naquela pintura parecia me
olhar.
Me senti bem.
Quando acabei,
a plateia embaçada se levantou.
As palmas de satisfação
recompensaram meu nervosismo inicial.
Meus olhos molhados,
fizeram da visão uma aquarela.

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