Ela aqui e ele lá


O celular despertou, e eu adiei. Afinal o que não dava pra deixar pra depois era esse aconchego tão gostosoAgora, ela parecia ter começado entender o jeito que gosto de ser abraçada. Ela é nova, e eu nova aqui. Estávamos nos acostumando uma com a outra. Quis aproveitar. Além disso, mercado eu ainda podia fazer em qualquer horário. Pelo menos até começar a trabalharDava pra ficar deitada um pouco mais. 
Gostei dela logo de cara. Desde o primeiro dia. Era linda. Mas comecei a perceber que um pouco vazia. Me esforcei pra não me incomodar. Carência é uma merda. Lembrei dele, com ele era só união. Sorri, jajá ele tava aqui.  

A noite foi tão gostosa, que quando o celular insistiu eu levantei de bom humor. Tava sol e fui aproveitar o dia.  A Ju me encontrou no metrô. Vimos um cara vendendo tapiocas e eu perguntei meio desesperada onde ele tinha encontrado aquela maravilha. Aqui tapioca é raridade. Ele me falou que vendia em um lugar ao lado de um museu. Olhei no Google e lembrei que André já tinha ido e adorado. Era um museu que ficava dentro de uma espécie de parque. Falei pra Ju que dava pra gente unir o útil ao agradável, e conhecer o museu antes de passar no mercado. Ela topou. 
Depois que me mudei, entrei naquele momento "ano novo, vida nova". Ser saudável estava nas minhas metas, e mesmo tendo fracassado até agora, meu otimismo sempre foi incrivelmente persistente. Infelizmente o museu tava fechado. Nos restou o mercado. Tapioca eu não encontrei, mas a aveia e o mel me lembraram do quanto eu adorava banana. Comprei e fiquei de achar a banana em outro lugar. Ali não vendia frutas. Contei pra André que tinha visto o parque, mas que não tinha dado pra entrar. Falar com ele deu ainda mais saudade.  Pedi pra trazer tapioca na mala. 

De noite ele me ligou. Eu precisava dela, mas a saudade me deixou uma hora pendurada no telefone. Ficamos imaginando se na casa nova teria sombra de plantinhas na parede. É nossa marca registrada. Decidimos que sim. Amor e sombra de plantinhas, vamos levar pra casa que for. 

Quando desliguei, capotei. Não tinha forças pra mais nada. Mas não consegui dormir e coloquei a culpa nela. Não me abraçou como antes, ficou fria. Me senti sozinha. Deu mais saudade dele. Teria me esquentado. Virei de um lado pro outro, virei até o travesseiro. Mas eu não queria mais ela sem o André junto. Desejei não estar ali. Tentei me acalmarele já ia chegar. E junto dele, eu me acostumo com qualquer uma, em qualquer lugar. Mesmo assim, não consegui dormir.  

Quando deu a hora do mercado abrir, fui comprar bananas pra aveia e pro mel e outras coisas que me animassem. Sempre gostei de mercados e farmácias. Meio porque gosto de me sentir adulta, e muito porque sendo adulta, posso comer sucrilhos todos os dias e ter quantas cores de esmaltes eu quiser.  

A falta de sono não me deixava pensar tão bem, e quando cheguei no caixa percebi que as benditas bananas tinham ficado pra trás E junto delas, a meta de vida saudável. Chocolate, marshmallow, balinhas que eu nunca tinha visto antes, sucrilhos tamanho famíliacomprei tudo o que eu precisava e nada do que eu precisava. Nessa hora pensei nela, não dava pra não pensar. Essa coisa toda era um reflexo da noite mal dormida. E a culpa era minha. Eu precisava relaxar. Aprender a me cuidar. Desisti das bananas. Eu só queria voltar.  

Maria também estava em casa quando cheguei. Já tinha limpado tudo e pelo cheirinho, a comida não demorava pra sair. Fui pro quarto e ela tava lá, toda arrumadinha, só me esperando. Não estava mais fria, o sol do meio dia tinha esquentado seu lençol. Mergulhei nela. Era tudo o que eu queria. Com esse cansaço todo não me importei dela estar vazia. Eu bem que aproveitei ela inteirinha só pra mim. Me abraçou gostoso. Não podia ser diferente pelo sono que eu sentia. Mas não vejo a hora dele chegar. Toda cama com ele, é a melhor cama do mundo.  

Ouvindo as bandas de cá


Era a última vez que ele acordaria com essa sensação.  

Começou umas semanas atrás, quando soube que a viagem daria certo. Uma bolha de ar melancólico, absorvia seus olhos assim que abriam pela manhã. E ela ia crescendo, garganta, crescendo, peito, crescendo, estômago, crescendo pernas; e por fim lá estava ele, inerte em uma angústia que não fazia ideia da onde vinha.  

Hoje começou parecido. A mudança na localização geográfica não foi problema pra bolha. Mas de fato esse edredom de pena de ganso era incrível. Se perdeu por instantes, se deliciando com a macieza aconchegante do tecido. Com pesar sentou na cama. Foi descendo devagarzinho o manto, praticamente sagrado, pra ver se sentiria frio. Que nada, o quarto parecia uma estufa. Valeu a pena dormir com o aquecedor ligado. Pisou no tapete felpudo e ele abraçou seu pé com carinho. Tava ali só há um dia e o quarto se esforçava pra dar boas-vindas. Devagarzinho foi levantando as persianas. Com medo da bolha dos olhos, dar pontada no peito. Vista de janela é uma coisa importante pra alguma casa virar a dele. A lembrança da jabuticabeira na janela antiga, cutucou a bolha da garganta. Mas quando o sol iluminou o quarto, e aquelas árvores secas de inverno apareceram na frente do céu azul-rosa, ele desejou vê-las floridas.  
Ainda não tinha dado tempo de fazer mercado. Colocou ceroula, calça, meia, meia, bota. Camiseta, camisa, malha, Blazer, cachecol. Luva e gorro e passou protetor labial. Pegou a carteira e foi atrás de um café. 

Descendo a rua veio a angústia estômago. Aqui não existia o "nosso café". E apesar de existir uma rua Augusta, seria difícil encontrar as empanadas do Soul com Baer Mate. Lembrou do dia em que o Álvaro mostrou esse chá gaseificado maravilhoso. O aroma maçã tinha um quê de infância, que num único gole o viciou. Experimentou junto com o primeiro e melhor sanduíche de falafel que ele já comeu na vida. A bolha tinha crescido tanto que quase tampou a plaquinha de giz: "Espuma dos Dias". Podia até ser o filme, ele estava na mesma vibe, mas era um café charmosinho com cortina de renda.  

Tinha pão de queijo. Tinha expresso. Tinha o famoso pastel de Belém que agora era de nata. Ele nunca quis experimentar. Nem o do Habibis. Vai ver tava esperando essa hora. Pediu. Algumas moças o olhavam e decidiu colocar os fones silenciosos. Uma estratégia que sempre usava quando não queria papo, mas também não precisava de trilha sonora. Aproveitou pra retomar o passatempo do aeroporto. Tinha um casal de senhores rabugentos bem em frente. Ela reclamava que ele não trabalhava o bastante. Ele só resmungava. Ao lado tinha um casal mais interessante. Parecia que haviam se encontrado por acaso, depois de anos sem se verem. Ele perguntou se ela estava trabalhando. Ela disse que pegou licença, um mês.  

- Nossa, jura? Mas o que houve? 
- Operei. Agora  de molho. 
- Operou? Pedras nos rins de novo? 
- Não. Agora não posso mais ter filhos. 
Pausa ansiosa. 
- Jura? Nunca mais? 
- Você não quis um nosso. 

De soslaio dava pra ver que eles estavam mais perto. Ele fechou os olhos e acariciou o braço dela. O amor às vezes aparece quando a gente menos espera. 

O pão de queijo tava quentinho. O café forte como ele gosta. E agora vamos ao famigerado pastel. Morninho, com uma leve crocância no folhado, recheio mole que derrete na boca e dá água nela toda hora que lembra. O manjar estava definitivamente banido da expressão, agora era "pastel de nata dos deuses", e ponto final. Se a vista da janela já não fosse tão sua, ele moraria naquela padaria - que agora deu pra entender porque chamam de "pastelaria". Esse doce de fato precisa nomear um estabelecimento inteiro -. 

No trajeto do metrô, viu um homem ao seu lado. Era bonito e elegante. O sorriso tranquilo despertava confiança. As pernas firmes, sabiam aonde ir. Ali não havia bolha, nem angústia, só anseio pelo novo. Com o fone desligado, ouvia o barulho da rua, das pessoas, dos pássaros. Sentia o cheiro da primavera chegando. Aquele reflexo que via no prédio era de um novo eu. E ele estava satisfeito com o que via. Dançou e se viu dançar. Naquele momento, a melhor faixa a ser ouvida nos fones, era o som da vida pulsando.