Café da manhã na cama


Ela me acorda.
Beijo, cheiro,
cabelo se mistura com cabelo.
Tá com a corda toda.

Faz charme me olhando nos olhos,
carinha de que não sabe muito.
Mas suas mãos procurando meu gemido
não disfarçam tão bem, já decoraram o caminho.

Ela se esfrega em mim
se fazendo de despertador.
Toda toda.
Santinha do pau oco.

Acordar assim é quase como não acordar.
É sonhar com coisa boa,
mas na hora de experimentar cê não acorda,
cê aproveita.

Olho praquela boquinha sorrindo
me chamando pro café.
Eu quase já não ouço,
minha mente é desejo.

Ajoelhada com a bunda nos pés,
ela me apressa.
Dando pulinhos animados de domingo,
seu peitinho balança embaixo da camiseta larga. 

Lambo sua boca com tesão. 
Ela agarra nas minhas costas 
e nós duas sabemos: 
o café pra variar, vai ter que esperar.

Corretor automático de relações

A gota d'água foi hoje. Sei que cê já tá cansado deu reclamar, mas te juro, dessa vez foi o estopim. Tô puta da vida com esse corretor, mas tô brava mesmo é comigo. Fui lá eu, escrever um texto pra ele como tantas vezes o fiz. Falei o quanto o amava, citei lembranças carinhosas, disse que ele era a minha vida e com ele sim eu casaria. Tava num daqueles momentos acreditando em tudo cegamente, quando fui escrever "obrigada". Era só uma conclusão, o finalzinho do texto, sabe? Tipo: "Obrigada por estar na minha vida" e blá blá blá. Mas aí o corretor veio e me jogou a verdade na cara. De "obrigada", o agradecimento virou "obrigação". Li aquilo entendendo o quão o corretor estava certo. Aquela carta tinha virado uma obrigação. Fazia tempo que eu fingia que não via, tentando me enganar, mas hoje o corretor também se cansou. Veio autoritário e escreveu, "obrigação por estar na minha vida". Eu li a frase repetidas vezes e ela só fazia mais sentido. Tô mesmo de saco cheio dessa obrigação. Pode ter sido ato falho, não sei, agora só quero agradecer é ao corretor automático. A carta foi pra lixeira. Meu amor próprio é que não. 

Pode ser real

Tô aqui, me vendo sentada, e contemplando além de meu corpo, esse cenário de vida a minha volta. Minhas mãos… não as sinto minhas. Meu corpo todo parece ter sido implantado somente para que meu cérebro se locomova. No entanto, meu corpo não toca o chão. Ele vaga pelas imagens de um mundo que não sinto pertencer. Depois da minha consciência, não há mais nada. Nem a sua consciência. Se agora você lê o que escrevo, você sou eu, imaginando que esse texto não é só meu. Você é um pedaço de mim, uma criação da minha vontade de espalhar essa mensagem. Espalhar para além dessa realidade simulada, na qual fui criada. Mas me incomodo a troco do que? Porque essa minha necessidade de explicações, de pertencimento? As pesquisas científicas já concluíram, se há um observador, existe uma realidade. Eu devia aceitar esse pseudo real e tomar meu café, quieta nesse vazio. Será que aceitar que não posso compreender porque nem sequer eu sou, não seria a melhor opção? Eu sei, mas o silêncio me atordoa. O que mais eu poderia fazer? Encher meu café de açúcar, meu pulmão de fumaça, minhas veias de agulha e aguardar meu corpo desistir e minha atividade cerebral diminuir, até eu não lembrar mais de mim mesma? É isso? Talvez seja isso o que eu queira e arranje algum culpado logo depois. Diga pra todo mundo que fui induzida. Mas esse todo mundo também não existe, não é? Ninguém vai ver. Ouvir meu grito. Se importar de ter um corpo apático a menos, ocupando as ruas que você usa pra desfilar seu calçado novo. Parabéns! É última geração. Assim como a sua. Esse é o único momento onde não me importo se eu não exista. Porque me alegra saber que pessoas como você, também não existem. Somos protótipos. Mas olha, se você passar por mim na rua, eu vou sorrir. Fica tranquilo. Sei que não aguentaria toda essa informação. Estrutura emocional é pra poucos. Eu mesma, choro de vez em quando. Lágrimas reais em uma realidade falsa. Lágrimas de desespero. Somos mais parecidos do que eu gostaria. Mas com toda essa loucura onde tento não me perder, é preciso ignorar alguns pontos né?! Esse é um deles. Meu lazer é esse. Inventar que somos pessoas diferentes. Que minha maldade é melhor que a sua. Mas você também costuma fazer isso, então estamos quites. Somos todos ruins nessa dimensão.

Meu aqui, já acabou


Fui acordando lentamente. Aquele cheiro invadindo meu corpo e buscando cada pedacinho de mim que ainda queria viver. Me surpreendi quando ele encontrou alguns. Eu estava destruída. Tentei me virar, mas a carcaça não respondia. Nem sequer meus olhos abriam, pelo tanto que chorei. Esperei. Não conseguia fazer mais nada além de esperar. E já estava farta disso. Dizem que o tempo é o melhor remédio, eu não consigo mais acreditar. Penso que a minha cura só virá quando o tempo acabar. Minha vontade de resetar isso tudo, não tem passado. E acho que eu nem quero. O cheiro insistia. Começou a virar um conjunto de sons. O fubá sendo amaciado na peneira, passando suave pelos buraquinhos e caindo fino na tigela. O leite abrindo espaço naquele amarelo lisinho. A colher de pau batendo nas bordas e deixando a massa cremosa. Carlos chegando com o bornal cheio de limões, só pra me agradar.
– Mãe, faz limonada.
Era o cheiro da minha infância. Pés descalços, cachoeira, e à tarde o lanche com bolo de fubá. Pelo visto minha mãe ainda fazia um igual. O cheiro me abraçou e me ergueu da cama. Sentei com vontade de desistir. Ele me envolveu e eu senti o peso do meu corpo sob os meus pés. A cama fedia e eu só tinha percebido agora. Passei a porta de bang bang do meu antigo quarto, agarrada naquele cheiro. As portas ficaram batendo, como a dor que insistia em ficar. Cheguei na cozinha e desabei na cadeira. Pelos fresta dos meus olhos inchados pude ver as lágrimas no rosto de minha mãe. Ela tinha feito o que podia. Mas ambas sabíamos. Já não era o bastante.