* 52

O maior erro é não se ouvir.
Vivemos aprisionados a verdades impostas e a voz das almas se calou.
A inquisição moderna superou a igreja e a intolerância está em cada canto dessa prisão imunda, na qual transformamos o mundo.
Ratos asquerosos tentam roer o que nos resta de cordas vocais, tentam arrancar o que nós temos de ação, despedaçar as retinas dos nossos olhos. Tudo isso contra a nossa vontade dita, mas com a nossa permissão muda.
Percebemos com desespero que os decretos que representam nosso futuro, saem de lábios grotescos que elegemos com nossa própria palavra. E mesmo que velas sejam acesas como que em formato de nossa caridade, elas não nos salvariam nem que incinerassem o parlamento.
Me perco na angústia da minha vida morna.
Me pergunto onde deixei a força pulsante de liberdade que eu perseguia quando mais nova.
Meu corpo trêmulo decide não mais viver e debruçada no poço de minha consciência encontro a sede pela luta.
E a primeira luta é a que travo contra mim mesma. Meus próprios tabus, preconceitos, vergonhas e maldades.
Me esforço para respirar, estou oprimida, sufocada. Com medo de dar um passo para a mudança.
Meus olhos marejados querem inundar a seca dos sertões, a minha fome saciada quer encher os pratos da África, os meus punhos querem unir os povos e a minha alma, ah, essa não quer mais ser violentada.
Enxergo pela primeira vez a minha vida. Compreendo que sempre dei voltas em torno da realidade, mas era dura demais para encarar.
Preciso agir! Fazer a diferença! Libertar meu grito preso na garganta.

Parem! Parem!

Impeçam que esse pêndulo monstruoso de iniquidade segregue nossa humanidade. Deem um basta nessa arma que nós apontamos contra nosso futuro.
E se for preciso, vestiremos nossas máscaras coragem, ‘porque por baixo delas não há só carne, mas ideia. E ideias são a prova de balas’.

Adaptação do conto "O poço e o pêdulo" de Edgar Allan Poe

Tipo de roteiro: Recriação

* 51

Guess Who

Da fresta da porta
olhos brilhantes me tem.
E o nosso entreolhar
tem nosso tempo.

Aquele,  pra vida toda.

Tem muito olho no olho
que é mais forte que abraço apertado.
E esse nosso
foi de beijo apaixonado.

Olhar moreno
Intenso
que me cuida...

Olhar sem ar
mas que deixa o outro respirar,
suspirar...

Nos olhamos como somos
e gostamos.

E olha,
esse pedacinho de porta aberta,
É um escancarar de coração, viu?!


* 50

Me congelo num sonho 
Sonho de rotina 
Sol no meu corpo nu 
A cama macia me protege 
Espero o almoço e meu amor voltar.

John me mostra Clarity
E agora colho diamantes 
Minha companhia é profunda 
Inquieta 
Mas a congelo num eterno utópico 

Me quero 

Sol do meu corpo nu 
Aqueço a cama
Não quero esperar, quero agora.
Ele me mostra que sou maior que meu corpo 
Meus medos se despetalam

Sou minha 

Mas me diz o que falta! 
Me entender demora e quero agora.
Estou iluminada, viva.
O que posso querer? 

Vem, 
Volte pra cama, 
quero escutar a luz do dia 
no seu peito. 
E quem sabe vislumbrar o que falta...

Serei sua
Por agora 
Serei só uma Julia. 

Eu termino, 
mas não me deixe ir.
Não pare de lutar por mim.

Ainda assim me vou. 

Minha cama me cuida 
E, mesmo esgotada de choro, 
sou mais feliz comigo mesma. 
Meu sol é forte.
E não é em torno de você, 
mas dele, que giro. 

Sei colorir meu mundo.
Mas no meu labirinto
Cada parede é de uma cor. 

Meu único coração 
Só me faz voar 
E quanto mais eu amo
Mais amor eu tenho

Nessa minha cama às vezes chove 
Mas só sinto o arco íris. 



Inspirado em:

Heavier Things - John Mayer

* 49

Balão que se destaca no azul
de se perder de vista.
Leve por ser inacabado,
Transparente e envolto em andaimes.
Estes, me levam aos céus. 

No ritual da rotina homens são padronizados.
Nos misturamos no azul.

Entre lapsos e vácuos a matéria morta se torna mais lar que o fogão que combina com o botijão.

Os gritos e choros não são ouvidos e a quentinha preenche a falta de perspectivas.
Ninguém vê.
Sinto o ímpeto de me afogar no azul.
A entrada chama sempre de serviço
mesmo que eu esteja de visita.
Olhares não encontram os meus,
se abaixam.
Minhas mechas não obedecem.
Entendem mais a liberdade que a sociedade.
Esta, se sente azul.

Quero mudar esse concreto todo que polui a minha vista.
Quero derrubar essa parede sólida de preconceito que só não estremece a minha fé, azul paz.

Conhecer o meu sorriso tão lindo quanto qualquer outro.
O desejo é de arrancar minha roupa carne e vestir a minha alma.

Os navios ainda existem
Mas hoje as velas são tela fachada,
pra segurança nossa.
E eu ainda acreditando que segurança tinha a ver com lápis e não telas.

Me agarro então, ainda mais nessa jornada.
Para que Joana se veja diante da tela, mas de cinema.
Para que Pedro conheça a de pintura.
E talvez, João se descubra TI na do computador.

Um futuro azul, sabe?!
Longe sim, mas possível.


* 48

Elas,
todas alinhadas,
em pares combinam.

Não organizadas
Mas ordenadas

São destacadas
mais nada...

Quando sozinhas dão nó na garganta,
nas mãos sedentas de sexo,
em volta de um pescoço seduzido.

Mas assim,
expostas
à mercê de um dono,

são nada.

A poeira do desinteresse as cobre.

As tradicionais sempre se ajeitam
Enquanto as moderninhas, bem...
são de moda.

Eu as usaria,
não todas.

Mas as escolhidas...

Ah como usaria!