Eu tava bem do seu lado
e parecia que nada acontecia.
Seu cheiro tava igual.
A textura da sua pele era como a daquela noite.
Seu humor tava ácido do jeito que cê sabe que gosto.
E até sua camiseta era a mesma.
Olhei pra mim
e a minha também era.
Num sei bem como,
mas ali entendi o quanto os universos particulares
são intensos e plurais.
Ainda que eu veja tudo igual
Posso enxergar as mesmas coisas
de mil maneiras.
Mesmo você não acontecendo por fora
senti seu calor de dentro.
Aproveitei em silêncio.
Ele esquentou em mim.
Se eu fosse te falar alguma coisa agora,
diria pra você sentir e mergulhar nas vontades.
Se envolver e conhecer o lado bruto e arrebatador dos desejos.
Deixar de se proteger de medos
pra não anular sua própria essência do viver.
Ia te contar que o presente existe.
E é nele que quero me perder.
O pôr do sol tava lindo hoje.
E eu vi.
Apertei a pontinha da saia com força.
Depois fiquei tentando desamassar com a mão.
Enrolei meu cabelo nos dedos.
Esfreguei ansiosa minha nuca.
Mordi os lábios prum lado e pro outro.
Minha bochecha denunciou meu coração acelerado.
Você só me olhava.
Parado.
Sereno.
Como é que todo esse amor num te escancara o peito?
O meu amor é como uma espuma subindo sem parar quando a gente tenta lavar uma garrafa.
O bom é que lava por dentro e por fora,
Às vezes cai um sabão no olho mas depois que tiro o excesso,
ele fica ainda mais brilhante.
Olhei sua perna,
e a minha já foi entrelaçando.
Olhei sua mão,
e senti ela nos meus seios.
Olhei seu pescoço,
e seu gosto tava na minha boca.
Olhei sua barba,
e mordi com desejo seu queixo.
E nos seus olhos,
eu toda já me aconcheguei.
É bem ali que a gente se encontra no gostar.
Onde o solilóquio tem a mesma ambição.
Você fechou as pápebras com carinho,
pra me guardar num abraço de olhar.
Agradeci.
Num sei até quando eu posso ficar.