* 68



No dia que você me fodeu na janela
meu grito abafava o som da cidade.
Suas mãos apertavam com força meu peito,
arrancando qualquer solidão.             
O sal que escorria era suor.
Nossos corpos reverberavam de desejo.
Minhas pernas tremiam na ponta do pé
pedindo mais de você.
Arranhei teu pescoço, tua coxa.
Cortei meu céu da boca de tanto chupar seu dedo.
Agarrando meu cabelo você marcou minha nuca.
Queria que não acabasse nunca.
Mas você gozou.

Não senti na hora
mas uma célula de transformação
superava o meu autocontrole.
Era metástase.

Você sabia que apenas uma a cada mil células que se desprende de um tumor poderá formar uma metástase?

Não é qualquer célula.
Ela precisa de muita habilidade pra ultrapassar a barreira de proteção do corpo.
E você não é qualquer um.

Quando te vi de novo
tudo aquilo tinha se multiplicado.
Eu amava aquele descontrole
e nosso amor sob medida.

Tava feliz.
Mas era uma quarta-feira.

Nunca gostei das quartas.
Já estou exausta e o fim de semana ainda parece longe.
Além de ser minha placa
e ter aula de Princípios Mercadológicos.

E agora, além de você ter me fodido de novo na janela.
Mas dessa vez 
só teve desprezo, não gozo.

Teu soco te jogou longe.
Atravessei a cidade querendo acelerar a dor.
Minhas mãos apertavam com força o volante
Esmagando qualquer ingenuidade.
O sal embaçava as luzes.
Meu corpo gritava esperando ouvir a dor 
e não meu coração.
Você, filho da puta, tinha ensinado ele a gritar mais alto.
Minha perna tremia e eu pisava mais fundo.
- Não te quero mais. Ouviu?!
Arranhei meu pescoço querendo te arrancar de mim.
Cortei minha boca mordendo de raiva.
Meu cabelo grudava na cara
Só queria que acabasse logo.

Bati o carro.
Tava na cara que era câncer terminal.

* 67


                           

Eu via os pés dele inquietos na cadeira ao lado.
Seu tênis rangia de um jeito,
que eu fazia o mesmo com os meus dentes.
Vi os pés pararem abruptamente,
aproveitei pra respirar.

Uma moça tinha chegado.
Ele enxugou as mãos na calça mostarda
e eu até me arrumei na cadeira.

Ela colocou uma caixa na mesa,
soltou o cabelo e foi até o balcão.
Andava leve,
sorria com tranquilidade.
Tanto que a ansiedade,
minha e dele,
se acalmou.

Voltou com café pros dois.
Quase levantei pra pedir um
mas não queria perder nada.

Ele puxou a caixa para si e não abriu.
Pena, queria muito ver.
Eu teria aberto.
Vai que me deparava com a esperança lá dentro.

Beberam o café em silêncio.
Se olhando de um jeito
que de jeito algum ele esfriaria.

Tentei focar no meu texto
mas eles queriam muito virar um também.

Quando voltei,
o olhar dela tinha um misto de paz com firmeza.
O dele, só pude ver escorrendo pela bochecha.
E o meu, virou decepção.
O que tinha perdido?

Ele levantou e se debruçou sobre a mesa.
Ela ficou.
Sentiu os dedos dele abraçando seu rosto,
os lábios deitando nos seus olhos
e se aconchegando no cantinho do sorriso.
E antes que ela perdesse o ar,
o café, que atravessava a mesa devagar,
se intrometeu na sua recaída.

Ela levantou rápido
e saiu secando o vestido com o guardanapo.
Ele ficou. Secando o café.
Já que as lágrimas se esquivavam.

Fiquei ali no canto
pensando se ele me acharia louco demais
se eu o abraçasse.
Podia ter uma regra onde abraços reconfortantes
são sempre permitidos né?!

Não vimos quando ela voltou,
nem se voltou.
Mas deixamos a caixa lá.