Deitei no cobertor vermelho e deixei só as pontas dos meus dedos tocarem a grama. Uma textura lisinha e um gelado tão refrescante; acabei me demorando no carinho. Senti um acordar de vida na minha pele e lembrei com pesar de como era antes da expedição. Não, agora não era hora pra reflexões. Faltavam três horas para o primeiro vídeo de contato. Eu precisava aparentar estar bem, segura de mim mesma e das minhas antigas convicções. Sim, antigas. Ignorei meu início de desespero e me isolei no instante lembrança. Olhei pro alto e o teto estava lindo, porque não existia. Eu via uma moldura de vários tipos de árvores, que ajudavam a enfeitar o céu. As nuvens eram uma fina camada de branco, e pareciam apenas leves pinceladas naquele azul intenso. Lembrei da cortina de borboletas que tinha na minha janela, quando criança. Era daquele azul e as borboletas brancas estampadas, pareciam voar como as nuvens, quando o vento batia. Eu imaginava cada uma delas saltando da cortina e desbravando novos cantinhos do céu. Era também o que eu imaginei quando decidi vir pra cá. Um voo de liberdade. Mas acabei por me encontrar numa fuga da realidade. Essa que agora eu sentia falta, queria de volta. Meu universo particular sempre me acolheu melhor do que a vida fora da minha cabeça. Então sempre me vi num misto, de viver em mim e dar só umas olhadinhas pra fora, como que pra atravessar a rua sem morrer atropelada. O que eu ainda não tinha percebido, até passar todo esse tempo sozinha, era que na minha mente eu vivia frações e versões do que acontecia lá fora. E agora sem uma vida de fato, eu beirava a loucura com as mil possibilidades de mim mesma. Não sabia mais mensurar o que eu tinha vivido e o que era minha invenção. Olhei pra paisagem holográfica a minha volta, toquei uma última vez a grama ilusória. Tirei os óculos e desliguei o sistema. A poeira vermelha invadiu minha visão. A primeira coisa que vi em Marte, foi a minha incapacidade de enxergar o que de fato de fazia bem. Depois de mais de seis meses de viagem, quando pisei em Marte, minha única certeza foi que eu queria voltar.
Lágrimas enchente
se despedaçou nas costas da minha mãe.
O choro invadiu meu quarto como enchente.
Paralisei.
Eu não sabia muito bem o que fazer com 11 anos,
mas sabia que tinha que tirar meu irmão de lá.
Saí trêmula em direção ao temporal.
Entrei, sem muito saber o que me esperava.
Mas esperando o pior.
Antes daquele momento,
eu não sabia o que era o pior.
No chão, destroços de uma relação doentia.
Meu irmão gritava, e eu desejei que fosse sono.
Que ele não pudesse ainda, compreender tudo aquilo.
Minha mãe gritava. Mas por clemência.
Por ser a sua única defesa.
Olhou nos meus olhos,
com lágrimas misturadas de dor e culpa.
E eu gritei de ódio.
-Solta ela!
Levei na cara.
O sangue que escorria do meu nariz,
Era como a lava.
Quando seco, petrificou meus sentimentos.
Devastou minha inocência.
Mas conquistou nossa liberdade.
O som do motor indo embora,
era como o final de um terremoto.
Esse foi o dia em que eu perdi minha família, num desastre alcoólico.
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