Ensaio de duas vidas a dois.




A gente tem dentro da gente, um universo inteirinho, enorme e incrível. Cada pessoa tem o seu e todo dia a gente o constrói mais um pouco. Se conhecendo melhor. Quando a gente encontra alguém, são dois universos particulares aos poucos criando um terceiro. O universo do "nós". E são mesmo vários nós pra serem desfeitos aos poucos, até cada coisa ir encontrando seu equilíbrio e se transformando em laço. O primeiro laço que tem que existir é o da gente com nós mesmos, que se intensifica com a união do relacionamento. E sem essa nossa individualidade firme e esse autoconhecimento, não existe o "nós". O "nós" é constituído por dois universos. Esqueça o "somos um só", ele não funciona. São três. Um universo inteiro + outro universo inteiro = nós. E esse inteiro é o que fortalece o "nós". 

Viver a dois é ter a liberdade de ser quem você realmente é, construindo uma cumplicidade que fortalece nossas verdades, respeitando a verdade do outro, e assim, fluindo o amor dos dois. 

* 74

Paro diante da porta.
A mão hesita.
Olho pra maçaneta e vejo meu reflexo.
Distorcido.

Será que é dessa forma que tenho me visto?

Pela fresta, os 7 graus se manifestam.
Imagino minha canela se transformando em picolé.
Você iria gostar dessa ideia,
mais parecida com o que acha de mim.
Fria.
Imagino as pessoas na rua,
assustadas com a minha imagem sem forma.

O quanto de dentro você transparece por fora?

Olhares congelados
grudando na minha alma.
Como gelo que cola na pele. 
Não sei até onde eu consigo disfarçar
essa minha confusão turva.

Pela terceira semana consecutiva,

sento no sofá colocando a culpa no frio.

Visão aquarela


Obviamente o cabelo amanheceu um horror.
Passei pomada, piorou.
Lavei de novo.
O filho da puta que inventou as regras de etiqueta,
devia ter cabeleireiro em casa.
Um chapéu resolveria minha vida.
Pedi ajuda com minha roupa
e Catarina resolveu tudo.
Uma coisa a menos.
Lembrei daquela gente toda que vai assistir,
a dor de barriga voltou.
No tempo que levei cagando
repassei minha falas.
Fazia tempo que eu não via gente.
Só Catarina mesmo,
e o Márcio do delivery.
Essa convenção me apavorava.
Sei que o mérito era meu.
Eu tinha que ir.
Mas me apavorava.
No Uber comi todas as balas.
Esperando que o microfone
não captasse o barulho da minha barriga.
Saindo do carro, um trator.
Meus óculos voaram.
Estavam destruídos.
A desgraçada nem parou pra olhar.
Se parou, eu também não vi.
Não tava vendo porra nenhuma.
Maior que meus seis graus de miopia,
só o meu desespero.
No saguão me receberam.
Resolvi sorrir, já que não reconhecia ninguém.
Uma mulher vinha na minha direção.
Dois passos antes dela chegar,
não reconheci Catarina.
Ela riu com a situação.

– Você não tá enxergando nada?
– Fala baixo, porra. Ninguém sabe.

Me levaram para frente do palco.
Ouvi meu nome.
Salva de palmas.
As pernas quase não caminharam.
Subi lentamente e me virei com pavor.
A plateia era turva.
Um Monet no fim da vida.
Poucas pinceladas eram no vermelho.
Sorri pra mais próxima,
torcendo que fosse Catarina.
Ninguém naquela pintura parecia me olhar.
Me senti bem.
Quando acabei,
a plateia embaçada se levantou.
As palmas de satisfação
recompensaram meu nervosismo inicial.
Meus olhos molhados,

fizeram da visão uma aquarela.

Risoto de funghi secchi


O jantar era na casa dele. Expliquei que era alérgica a ovo. Deveria ter falado que não tenho uma perna? Os últimos homens passaram rápido. Com um toque já não sabiam mais lidar. Contar tem sido terminar relacionamentos que mal começaram, resolvi esperar. Nos dois encontros que tivemos, a rapidez dos pensamentos dele parecia combinar com o tempo. Que não esperou em nem um momento, e já foi me deixando com frio na barriga e sorriso bobo. Escolhi uma lingerie prata que combinava com a prótese nova. Eu gostava, tinha um quê futurístico. Minhas mãos estavam geladas, mas meu coração quente. Eu estava pronta.

***

Nunca tinha visto um sorriso mais bonito.
Ela sorri com o corpo todo.
E eu sorrio quase sem ação
porque ela toda, sorri na minha direção.
As mãos leves vêm até a boca
- que por sinal faz um encaixe perfeito na minha -
e tentam conter uma energia que não se refreia.
Os cabelos,
como ondas de alegria
emolduram seu rosto.
Que possui um imã,
puxa o meu pra perto e me ilumina de tabela.
De frente pra ela o resto congela.

Chamei pra jantar em casa,
contei que era pequena.
Será que devia ter falado que não sei cozinhar?
Comprei tudo congelado.
Sem ovo, ela é alérgica.
Escondi bem as embalagens
e torci pra ter gosto de comida caseira.

A campainha acelerou meu coração.
Prendi a respiração.
Ela ali na soleira da porta,
parecia holografia.
Uma que minha mente tinha criado.
Nossos olhos se mergulharam
e cada um ganhou mais um pouco.
Ela de mim e eu dela.

Entrei na frente
arrumando as pequenas bagunças no caminho.
Escondendo o que achava que ela pudesse não gostar.
Esquecendo que ela gostava era de mim.

Sua pele preenchia minhas mãos.
Nossas roupas o chão.
Ela me olhou nos olhos e me disse que não tinha uma perna.
Fui obrigado a contar que a comida era congelada.
Ela riu, acho que não ligou.
Encostei na sua coxa estática.
Perguntei se ela era humana mesmo,
ou se tinha sido toda feita pra mim.
Ela disse que era.

E que eu era todo feito pra ela.