Risoto de funghi secchi


O jantar era na casa dele. Expliquei que era alérgica a ovo. Deveria ter falado que não tenho uma perna? Os últimos homens passaram rápido. Com um toque já não sabiam mais lidar. Contar tem sido terminar relacionamentos que mal começaram, resolvi esperar. Nos dois encontros que tivemos, a rapidez dos pensamentos dele parecia combinar com o tempo. Que não esperou em nem um momento, e já foi me deixando com frio na barriga e sorriso bobo. Escolhi uma lingerie prata que combinava com a prótese nova. Eu gostava, tinha um quê futurístico. Minhas mãos estavam geladas, mas meu coração quente. Eu estava pronta.

***

Nunca tinha visto um sorriso mais bonito.
Ela sorri com o corpo todo.
E eu sorrio quase sem ação
porque ela toda, sorri na minha direção.
As mãos leves vêm até a boca
- que por sinal faz um encaixe perfeito na minha -
e tentam conter uma energia que não se refreia.
Os cabelos,
como ondas de alegria
emolduram seu rosto.
Que possui um imã,
puxa o meu pra perto e me ilumina de tabela.
De frente pra ela o resto congela.

Chamei pra jantar em casa,
contei que era pequena.
Será que devia ter falado que não sei cozinhar?
Comprei tudo congelado.
Sem ovo, ela é alérgica.
Escondi bem as embalagens
e torci pra ter gosto de comida caseira.

A campainha acelerou meu coração.
Prendi a respiração.
Ela ali na soleira da porta,
parecia holografia.
Uma que minha mente tinha criado.
Nossos olhos se mergulharam
e cada um ganhou mais um pouco.
Ela de mim e eu dela.

Entrei na frente
arrumando as pequenas bagunças no caminho.
Escondendo o que achava que ela pudesse não gostar.
Esquecendo que ela gostava era de mim.

Sua pele preenchia minhas mãos.
Nossas roupas o chão.
Ela me olhou nos olhos e me disse que não tinha uma perna.
Fui obrigado a contar que a comida era congelada.
Ela riu, acho que não ligou.
Encostei na sua coxa estática.
Perguntei se ela era humana mesmo,
ou se tinha sido toda feita pra mim.
Ela disse que era.

E que eu era todo feito pra ela.


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