Fui acordando lentamente. Aquele cheiro invadindo meu corpo e buscando cada pedacinho de mim que ainda queria viver. Me surpreendi quando ele encontrou alguns. Eu estava destruída. Tentei me virar, mas a carcaça não respondia. Nem sequer meus olhos abriam, pelo tanto que chorei. Esperei. Não conseguia fazer mais nada além de esperar. E já estava farta disso. Dizem que o tempo é o melhor remédio, eu não consigo mais acreditar. Penso que a minha cura só virá quando o tempo acabar. Minha vontade de resetar isso tudo, não tem passado. E acho que eu nem quero. O cheiro insistia. Começou a virar um conjunto de sons. O fubá sendo amaciado na peneira, passando suave pelos buraquinhos e caindo fino na tigela. O leite abrindo espaço naquele amarelo lisinho. A colher de pau batendo nas bordas e deixando a massa cremosa. Carlos chegando com o bornal cheio de limões, só pra me agradar.
– Mãe, faz limonada.
Era o cheiro da minha infância. Pés descalços, cachoeira, e à tarde o lanche com bolo de fubá. Pelo visto minha mãe ainda fazia um igual. O cheiro me abraçou e me ergueu da cama. Sentei com vontade de desistir. Ele me envolveu e eu senti o peso do meu corpo sob os meus pés. A cama fedia e eu só tinha percebido agora. Passei a porta de bang bang do meu antigo quarto, agarrada naquele cheiro. As portas ficaram batendo, como a dor que insistia em ficar. Cheguei na cozinha e desabei na cadeira. Pelos fresta dos meus olhos inchados pude ver as lágrimas no rosto de minha mãe. Ela tinha feito o que podia. Mas ambas sabíamos. Já não era o bastante.
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