Pode ser real

Tô aqui, me vendo sentada, e contemplando além de meu corpo, esse cenário de vida a minha volta. Minhas mãos… não as sinto minhas. Meu corpo todo parece ter sido implantado somente para que meu cérebro se locomova. No entanto, meu corpo não toca o chão. Ele vaga pelas imagens de um mundo que não sinto pertencer. Depois da minha consciência, não há mais nada. Nem a sua consciência. Se agora você lê o que escrevo, você sou eu, imaginando que esse texto não é só meu. Você é um pedaço de mim, uma criação da minha vontade de espalhar essa mensagem. Espalhar para além dessa realidade simulada, na qual fui criada. Mas me incomodo a troco do que? Porque essa minha necessidade de explicações, de pertencimento? As pesquisas científicas já concluíram, se há um observador, existe uma realidade. Eu devia aceitar esse pseudo real e tomar meu café, quieta nesse vazio. Será que aceitar que não posso compreender porque nem sequer eu sou, não seria a melhor opção? Eu sei, mas o silêncio me atordoa. O que mais eu poderia fazer? Encher meu café de açúcar, meu pulmão de fumaça, minhas veias de agulha e aguardar meu corpo desistir e minha atividade cerebral diminuir, até eu não lembrar mais de mim mesma? É isso? Talvez seja isso o que eu queira e arranje algum culpado logo depois. Diga pra todo mundo que fui induzida. Mas esse todo mundo também não existe, não é? Ninguém vai ver. Ouvir meu grito. Se importar de ter um corpo apático a menos, ocupando as ruas que você usa pra desfilar seu calçado novo. Parabéns! É última geração. Assim como a sua. Esse é o único momento onde não me importo se eu não exista. Porque me alegra saber que pessoas como você, também não existem. Somos protótipos. Mas olha, se você passar por mim na rua, eu vou sorrir. Fica tranquilo. Sei que não aguentaria toda essa informação. Estrutura emocional é pra poucos. Eu mesma, choro de vez em quando. Lágrimas reais em uma realidade falsa. Lágrimas de desespero. Somos mais parecidos do que eu gostaria. Mas com toda essa loucura onde tento não me perder, é preciso ignorar alguns pontos né?! Esse é um deles. Meu lazer é esse. Inventar que somos pessoas diferentes. Que minha maldade é melhor que a sua. Mas você também costuma fazer isso, então estamos quites. Somos todos ruins nessa dimensão.

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