Ouvindo as bandas de cá


Era a última vez que ele acordaria com essa sensação.  

Começou umas semanas atrás, quando soube que a viagem daria certo. Uma bolha de ar melancólico, absorvia seus olhos assim que abriam pela manhã. E ela ia crescendo, garganta, crescendo, peito, crescendo, estômago, crescendo pernas; e por fim lá estava ele, inerte em uma angústia que não fazia ideia da onde vinha.  

Hoje começou parecido. A mudança na localização geográfica não foi problema pra bolha. Mas de fato esse edredom de pena de ganso era incrível. Se perdeu por instantes, se deliciando com a macieza aconchegante do tecido. Com pesar sentou na cama. Foi descendo devagarzinho o manto, praticamente sagrado, pra ver se sentiria frio. Que nada, o quarto parecia uma estufa. Valeu a pena dormir com o aquecedor ligado. Pisou no tapete felpudo e ele abraçou seu pé com carinho. Tava ali só há um dia e o quarto se esforçava pra dar boas-vindas. Devagarzinho foi levantando as persianas. Com medo da bolha dos olhos, dar pontada no peito. Vista de janela é uma coisa importante pra alguma casa virar a dele. A lembrança da jabuticabeira na janela antiga, cutucou a bolha da garganta. Mas quando o sol iluminou o quarto, e aquelas árvores secas de inverno apareceram na frente do céu azul-rosa, ele desejou vê-las floridas.  
Ainda não tinha dado tempo de fazer mercado. Colocou ceroula, calça, meia, meia, bota. Camiseta, camisa, malha, Blazer, cachecol. Luva e gorro e passou protetor labial. Pegou a carteira e foi atrás de um café. 

Descendo a rua veio a angústia estômago. Aqui não existia o "nosso café". E apesar de existir uma rua Augusta, seria difícil encontrar as empanadas do Soul com Baer Mate. Lembrou do dia em que o Álvaro mostrou esse chá gaseificado maravilhoso. O aroma maçã tinha um quê de infância, que num único gole o viciou. Experimentou junto com o primeiro e melhor sanduíche de falafel que ele já comeu na vida. A bolha tinha crescido tanto que quase tampou a plaquinha de giz: "Espuma dos Dias". Podia até ser o filme, ele estava na mesma vibe, mas era um café charmosinho com cortina de renda.  

Tinha pão de queijo. Tinha expresso. Tinha o famoso pastel de Belém que agora era de nata. Ele nunca quis experimentar. Nem o do Habibis. Vai ver tava esperando essa hora. Pediu. Algumas moças o olhavam e decidiu colocar os fones silenciosos. Uma estratégia que sempre usava quando não queria papo, mas também não precisava de trilha sonora. Aproveitou pra retomar o passatempo do aeroporto. Tinha um casal de senhores rabugentos bem em frente. Ela reclamava que ele não trabalhava o bastante. Ele só resmungava. Ao lado tinha um casal mais interessante. Parecia que haviam se encontrado por acaso, depois de anos sem se verem. Ele perguntou se ela estava trabalhando. Ela disse que pegou licença, um mês.  

- Nossa, jura? Mas o que houve? 
- Operei. Agora  de molho. 
- Operou? Pedras nos rins de novo? 
- Não. Agora não posso mais ter filhos. 
Pausa ansiosa. 
- Jura? Nunca mais? 
- Você não quis um nosso. 

De soslaio dava pra ver que eles estavam mais perto. Ele fechou os olhos e acariciou o braço dela. O amor às vezes aparece quando a gente menos espera. 

O pão de queijo tava quentinho. O café forte como ele gosta. E agora vamos ao famigerado pastel. Morninho, com uma leve crocância no folhado, recheio mole que derrete na boca e dá água nela toda hora que lembra. O manjar estava definitivamente banido da expressão, agora era "pastel de nata dos deuses", e ponto final. Se a vista da janela já não fosse tão sua, ele moraria naquela padaria - que agora deu pra entender porque chamam de "pastelaria". Esse doce de fato precisa nomear um estabelecimento inteiro -. 

No trajeto do metrô, viu um homem ao seu lado. Era bonito e elegante. O sorriso tranquilo despertava confiança. As pernas firmes, sabiam aonde ir. Ali não havia bolha, nem angústia, só anseio pelo novo. Com o fone desligado, ouvia o barulho da rua, das pessoas, dos pássaros. Sentia o cheiro da primavera chegando. Aquele reflexo que via no prédio era de um novo eu. E ele estava satisfeito com o que via. Dançou e se viu dançar. Naquele momento, a melhor faixa a ser ouvida nos fones, era o som da vida pulsando. 

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