A cabeça pulsava como uma bomba-relógio prestes a explodir. Ele, sem levantar da cama, tateou a mesinha ao lado em busca de algo que desativasse aquela arma letal. Nada. Acendeu o abajur e a luz ofuscante fez com que ele o desligasse imediatamente. Tentou se mexer. Precisava levantar, voltar a vida real. O corpo parecia ter sido atropelado e sentia um gosto de sangue na boca. A maior dor, no entanto, era psicológica. O pouco que conseguia reconstituir da memória, já era suficiente para que não suportasse mais nenhuma lembrança. Com dificuldade se virou de lado na cama e aos poucos tocou o chão. O frio percorreu sua espinha e de certa forma anestesiou a dor. Cambaleante chegou até a pia e deixou a água escorrer pela nuca. Sua vida tinha chegado em um ponto onde os excessos eram necessários. A bebida e as drogas o levavam pra longe da mente labirinto. A exaustão apagava da memória, essa maldita exclusão que sentia no seu dia a dia. Mas ele estava cansado. Puto de ter que se esconder em moldes que o apertavam e mutilavam. Talvez esse fosse o último dia que ele suportaria tudo aquilo. Não aguentava as pessoas, os discursos; a ignorância o enojava. Desejou que aquele fosse o último dia, no qual ele tomaria as pílulas. Ansiou pela coragem de transgredir e encarar seu eu interior. Se aceitar sem esperar que façam o mesmo. Enquanto abria o espelho, teve um vislumbre de quem ele havia se transformado, para se encaixar onde ninguém de fato se encaixa. E teve a certeza de que não gostava desse eu. Tomou as pílulas contra sua vontade, sem entender direito, quem de fato o obrigava. Seria somente covardia? Ou no fundo ele gostaria de fazer parte dessa sociedade que ele tanto critica? Não, isso ele tinha certeza que não era. Preferia enlouquecer. Já não estaria enlouquecendo? Desejou que aquele fosse o último dia, no qual ele tomaria as pílulas.
Sentiu um alívio imediato nas dores do corpo. A cabeça até conseguiria refletir, se não estivesse tão dopada. Deixou a água escorrer pelo seu corpo, vestiu sua camisa, e com todos os botões alinhados e bem fechados, foi asfixiado de amargura e obediência para o trabalho. Sentia agora, que ele todo era uma bomba-relógio. As pílulas, que antes pareciam um novelo de lã, traçando um caminho de salvação para fora de sua mente absurda, agora pareciam uma corda cada vez mais apertada em seu pescoço. Enxergou que elas não o levavam de volta daquele labirinto que era sua existência, e sim o trancafiavam em um beco sem saída, onde o amor próprio ficava na vitrine, e não nos interiores. Ele não precisava mais ser aceito. Desejou que aquele fosse o último dia, no qual ele tomaria as pílulas. Ele não precisaria mais de máscaras para esconder seus monstros internos. Não precisaria mais sorrir o tempo todo.
Acordou tarde. Sua cabeça latejava. Desejou que ontem, tivesse sido o último dia, no qual ele tomou as pílulas. Decidiu que não mais esconderia sua real essência, sua identidade. Mas o novelo corda, já sufocava sua garganta. Não conseguiu gritar. Como um soco no estômago, percebeu tarde demais até onde podia se esconder de si mesmo. A velha mania de acreditarmos que tudo deve pra sempre, ofuscou a luta. Apenas deixou a opressão agir. Não há mais espaço para ele no mundo. A sociedade é tela onde as tintas são plásticas e laváveis. Onde o profundo e oceânico, não perpetua. Não há espaço para um monstro humano nessa sociedade fachada. Ela não suporta as mazelas da realidade. Não está preparada. Aquele foi o último dia no qual ele tomou as pílulas.
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