Seu tênis rangia de um jeito,
que eu fazia o mesmo com os meus dentes.
Vi os pés pararem abruptamente,
aproveitei pra respirar.
Uma moça tinha chegado.
Ele enxugou as mãos na calça mostarda
e eu até me arrumei na cadeira.
Ela colocou uma caixa na mesa,
soltou o cabelo e foi até o balcão.
Andava leve,
sorria com tranquilidade.
Tanto que a ansiedade,
minha e dele,
se acalmou.
Voltou com café pros dois.
Quase levantei pra pedir um
mas não queria perder nada.
Ele puxou a caixa para si e não abriu.
Pena, queria muito ver.
Eu teria aberto.
Vai que me deparava com a esperança lá dentro.
Beberam o café em silêncio.
Se olhando de um jeito
que de jeito algum ele esfriaria.
Tentei focar no meu texto
mas eles queriam muito virar um também.
Quando voltei,
o olhar dela tinha um misto de paz com firmeza.
O dele, só pude ver escorrendo pela bochecha.
E o meu, virou decepção.
O que tinha perdido?
Ele levantou e se debruçou sobre a mesa.
Ela ficou.
Sentiu os dedos dele abraçando seu rosto,
os lábios deitando nos seus olhos
e se aconchegando no cantinho do sorriso.
E antes que ela perdesse o ar,
o café, que atravessava a mesa devagar,
se intrometeu na sua recaída.
Ela levantou rápido
e saiu secando o vestido com o guardanapo.
Ele ficou. Secando o café.
Já que as lágrimas se esquivavam.
Fiquei ali no canto
pensando se ele me acharia louco demais
se eu o abraçasse.
Podia ter uma regra onde abraços reconfortantes
são sempre permitidos né?!
Não vimos quando ela voltou,
nem se voltou.
Mas deixamos a caixa lá.

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